A CVM Resolução 244 alterou o cenário que se esperava para os relatórios ESG no Brasil: a obrigatoriedade que estava prevista para companhias abertas foi removida, tornando o reporte de sustentabilidade um movimento voluntário. Para algumas empresas, isso pode parecer uma janela de alívio operacional. Para as que compreendem como o mercado funciona, representa uma oportunidade mais clara: organizações que optarem por construir e publicar relatórios ESG robustos agora comunicarão algo além da conformidade. Elas comunicarão escolha estratégica.
A pressão comercial que sustenta a relevância dos relatórios ESG não depende de obrigatoriedade regulatória local. Mais de 70% das empresas globais já exigem conformidade ESG de fornecedores antes de qualificá-los como parceiros. US$ 1,6 bilhão em importações foram retidos nos Estados Unidos por falhas ESG na cadeia de suprimentos. A CSRD europeia, obrigatória desde 2025 para grandes empresas europeias, transfere parte dessa exigência para fornecedores brasileiros que integram essas cadeias. Plataformas como a EcoVadis continuam sendo critério ativo em processos de qualificação com multinacionais como Nestlé, Bayer e Danone. O mercado continuará avaliando relatórios ESG independentemente do que estabelece a regulação brasileira.
Em um cenário onde o reporte se torna voluntário, a distância entre empresas que constroem relatórios com rigor e aquelas que não constroem se torna mais visível. Compradores, investidores e parceiros que utilizam ESG como critério de qualificação distinguirão com mais clareza quem optou por reportar de forma estruturada e quem não optou. A qualidade do relatório, com processo documentado, dados auditáveis e conexão estratégica com o negócio, é o que define se esse diferencial se traduz em resultado comercial concreto.
Etapa 1: Estabeleça a governança ESG. O ponto de partida é organizacional. Defina um comitê ESG com patrocinador executivo no nível de C-level, nomeie responsáveis por dados em cada área da empresa e estabeleça cadência de reuniões periódicas. Sem essa estrutura, a coleta de dados se torna fragmentada, os prazos não são cumpridos e o relatório final carrega inconsistências que comprometem a confiabilidade de todo o material.
Etapa 2: Conduza a avaliação de materialidade. Este passo define o escopo de tudo que vem depois. A materialidade é avaliada por dois ângulos simultâneos: como as atividades da empresa impactam o ambiente, a sociedade e as pessoas; e como fatores externos de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro e o acesso a capital. Para cada tópico ESG relevante ao setor e ao modelo de negócio, aplique critérios de severidade do impacto e de probabilidade e magnitude financeira do risco. Os resultados precisam ser validados pela liderança e pelo conselho, com o processo documentado para auditoria futura.
Etapa 3: Mapeie e estruture a coleta de dados. Identifique as fontes internas de cada indicador, defina as metodologias de cálculo e estabeleça controles de qualidade. A coleta descentralizada via planilhas e e-mails gera inconsistências e retrabalho significativo. O caminho correto é um processo centralizado com responsáveis definidos por área, prazos estabelecidos e sistema de monitoramento contínuo. Dados de emissões, segurança, diversidade e governança devem ser coletados ao longo do ano inteiro, não apenas no último trimestre do ciclo.
Etapa 4: Escolha o(s) framework(s). A decisão parte de três filtros em sequência: obrigação regulatória do mercado onde a empresa opera, público prioritário de reporte e presença geográfica. Empresas com clientes ou operações na União Europeia precisam do CSRD/ESRS. Aquelas que se comunicam com investidores institucionais globais se beneficiam do ISSB. O GRI é amplamente adotado para comunicação com múltiplos stakeholders. A maioria das empresas de médio e grande porte reporta em dois a três frameworks simultaneamente, e plataformas de gestão ESG permitem inserir os dados uma única vez e gerar relatórios em múltiplos formatos.
Etapa 5: Redija o relatório. O conteúdo se organiza em quatro dimensões: Governança, que descreve a estrutura de supervisão ESG; Estratégia, que demonstra como os temas ESG afetam o modelo de negócio; Gestão de Riscos, que detalha os processos de identificação e mitigação; e Métricas e Metas, que apresenta os KPIs com dados históricos e targets futuros. Cada dado precisa estar conectado à estratégia da empresa e demonstrar o impacto financeiro, operacional ou regulatório das decisões tomadas a partir dele.
Etapa 6: Obtenha asseguração independente. Envolva um auditor independente para validar a confiabilidade, a rastreabilidade e a consistência dos dados. Sem essa etapa, o relatório carece do elemento que transforma informação em evidência verificável. Empresas que optam pela asseguração voluntária, no contexto pós-CVM 244, chegam a processos de due diligence com um nível de credibilidade que relatórios sem validação externa não conseguem oferecer.
Etapa 7: Publique e comunique. Disponibilize o relatório no website corporativo, nos canais de relacionamento com investidores e nos portais de avaliação de fornecedores relevantes para o seu mercado. A publicação é o momento em que o relatório se torna argumento comercial ativo. A forma como ele é comunicado internamente também importa: equipes que entendem o processo ESG sustentam a consistência dos dados e reforçam a cultura que o relatório pretende demonstrar ao mercado.
A maioria dos relatórios ESG falha nos mesmos pontos. Identificar esses erros antes de iniciar o processo evita retrabalho, exposição e perda da credibilidade que o relatório deveria construir:
A escolha dos referenciais corretos define quais métricas coletar, qual narrativa estruturar e quais auditorias preparar. Os frameworks e certificações abaixo são os mais relevantes para empresas brasileiras que querem construir relatórios com reconhecimento de mercado:
Organizações que constroem relatórios ESG voluntariamente, com rigor processual e publicação consistente ao longo do tempo, acumulam um tipo de credibilidade que não se constrói retroativamente. Cada ciclo de reporte bem executado fortalece a base de evidências disponível para compradores, investidores e parceiros que utilizam ESG como filtro de decisão.
A remoção da obrigatoriedade, no contexto atual, cria uma janela em que a escolha de reportar comunica mais do que o conteúdo do relatório em si. Ela indica que a empresa trata ESG como parte do modelo de gestão, e não como resposta a uma exigência externa. Esse sinal chega antes da reunião comercial, antes da proposta e antes da due diligence.
Empresas que entendem isso e estruturam seu processo de reporte agora chegam aos próximos ciclos com histórico verificável, dados auditados e uma posição de mercado que concorrentes que esperaram para decidir terão dificuldade em alcançar no mesmo prazo.
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