Como construir relatórios ESG para sua empresa
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Como construir relatórios ESG para sua empresa

GEP Soluções em Compliance
1 de jul, 2026
6 mins

A CVM Resolução 244 alterou o cenário que se esperava para os relatórios ESG no Brasil: a obrigatoriedade que estava prevista para companhias abertas foi removida, tornando o reporte de sustentabilidade um movimento voluntário. Para algumas empresas, isso pode parecer uma janela de alívio operacional. Para as que compreendem como o mercado funciona, representa uma oportunidade mais clara: organizações que optarem por construir e publicar relatórios ESG robustos agora comunicarão algo além da conformidade. Elas comunicarão escolha estratégica.

A pressão comercial que sustenta a relevância dos relatórios ESG não depende de obrigatoriedade regulatória local. Mais de 70% das empresas globais já exigem conformidade ESG de fornecedores antes de qualificá-los como parceiros. US$ 1,6 bilhão em importações foram retidos nos Estados Unidos por falhas ESG na cadeia de suprimentos. A CSRD europeia, obrigatória desde 2025 para grandes empresas europeias, transfere parte dessa exigência para fornecedores brasileiros que integram essas cadeias. Plataformas como a EcoVadis continuam sendo critério ativo em processos de qualificação com multinacionais como Nestlé, Bayer e Danone. O mercado continuará avaliando relatórios ESG independentemente do que estabelece a regulação brasileira.

Em um cenário onde o reporte se torna voluntário, a distância entre empresas que constroem relatórios com rigor e aquelas que não constroem se torna mais visível. Compradores, investidores e parceiros que utilizam ESG como critério de qualificação distinguirão com mais clareza quem optou por reportar de forma estruturada e quem não optou. A qualidade do relatório, com processo documentado, dados auditáveis e conexão estratégica com o negócio, é o que define se esse diferencial se traduz em resultado comercial concreto.

As sete etapas para construir um relatório ESG robusto

Etapa 1: Estabeleça a governança ESG. O ponto de partida é organizacional. Defina um comitê ESG com patrocinador executivo no nível de C-level, nomeie responsáveis por dados em cada área da empresa e estabeleça cadência de reuniões periódicas. Sem essa estrutura, a coleta de dados se torna fragmentada, os prazos não são cumpridos e o relatório final carrega inconsistências que comprometem a confiabilidade de todo o material.

Etapa 2: Conduza a avaliação de materialidade. Este passo define o escopo de tudo que vem depois. A materialidade é avaliada por dois ângulos simultâneos: como as atividades da empresa impactam o ambiente, a sociedade e as pessoas; e como fatores externos de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro e o acesso a capital. Para cada tópico ESG relevante ao setor e ao modelo de negócio, aplique critérios de severidade do impacto e de probabilidade e magnitude financeira do risco. Os resultados precisam ser validados pela liderança e pelo conselho, com o processo documentado para auditoria futura.

Etapa 3: Mapeie e estruture a coleta de dados. Identifique as fontes internas de cada indicador, defina as metodologias de cálculo e estabeleça controles de qualidade. A coleta descentralizada via planilhas e e-mails gera inconsistências e retrabalho significativo. O caminho correto é um processo centralizado com responsáveis definidos por área, prazos estabelecidos e sistema de monitoramento contínuo. Dados de emissões, segurança, diversidade e governança devem ser coletados ao longo do ano inteiro, não apenas no último trimestre do ciclo.

Etapa 4: Escolha o(s) framework(s). A decisão parte de três filtros em sequência: obrigação regulatória do mercado onde a empresa opera, público prioritário de reporte e presença geográfica. Empresas com clientes ou operações na União Europeia precisam do CSRD/ESRS. Aquelas que se comunicam com investidores institucionais globais se beneficiam do ISSB. O GRI é amplamente adotado para comunicação com múltiplos stakeholders. A maioria das empresas de médio e grande porte reporta em dois a três frameworks simultaneamente, e plataformas de gestão ESG permitem inserir os dados uma única vez e gerar relatórios em múltiplos formatos.

Etapa 5: Redija o relatório. O conteúdo se organiza em quatro dimensões: Governança, que descreve a estrutura de supervisão ESG; Estratégia, que demonstra como os temas ESG afetam o modelo de negócio; Gestão de Riscos, que detalha os processos de identificação e mitigação; e Métricas e Metas, que apresenta os KPIs com dados históricos e targets futuros. Cada dado precisa estar conectado à estratégia da empresa e demonstrar o impacto financeiro, operacional ou regulatório das decisões tomadas a partir dele.

Etapa 6: Obtenha asseguração independente. Envolva um auditor independente para validar a confiabilidade, a rastreabilidade e a consistência dos dados. Sem essa etapa, o relatório carece do elemento que transforma informação em evidência verificável. Empresas que optam pela asseguração voluntária, no contexto pós-CVM 244, chegam a processos de due diligence com um nível de credibilidade que relatórios sem validação externa não conseguem oferecer.

Etapa 7: Publique e comunique. Disponibilize o relatório no website corporativo, nos canais de relacionamento com investidores e nos portais de avaliação de fornecedores relevantes para o seu mercado. A publicação é o momento em que o relatório se torna argumento comercial ativo. A forma como ele é comunicado internamente também importa: equipes que entendem o processo ESG sustentam a consistência dos dados e reforçam a cultura que o relatório pretende demonstrar ao mercado.

Os erros mais comuns que comprometem a credibilidade do relatório

A maioria dos relatórios ESG falha nos mesmos pontos. Identificar esses erros antes de iniciar o processo evita retrabalho, exposição e perda da credibilidade que o relatório deveria construir:

  • Greenwashing por omissão: destacar iniciativas positivas e omitir desempenho negativo. Relatórios que apresentam apenas o que é favorável são identificados rapidamente por analistas ESG e geram mais desconfiança do que credibilidade. A solução é incluir os dados negativos com contexto, explicando o que gerou o resultado ruim e qual o plano de melhoria.
  • Avaliação de materialidade genérica: copiar os tópicos de materialidade do relatório de um concorrente sem conduzir análise própria. Cada empresa tem um perfil de risco e impacto específico. A materialidade precisa ser conduzida com envolvimento real da liderança e engajamento de stakeholders, com o processo documentado para verificação externa.
  • Dados dispersos e sem integração: coletar dados de múltiplos departamentos via e-mail e planilhas gera inconsistências e risco de erros nos números publicados. O processo precisa de centralização, responsáveis definidos e sistema de monitoramento desde o início do ciclo de reporte.
  • Narrativa vazia sem conexão estratégica: apresentar dados corretos desconectados da estratégia da empresa. O dado ESG só tem valor quando conectado ao impacto financeiro, operacional ou regulatório e à decisão que ele fundamenta para o negócio.
  • Começar tarde demais: iniciar a estruturação do relatório no último trimestre do ano de referência. ESG exige coleta contínua ao longo do ano. Dados que dependem de sistemas, auditorias e validações internas não são construídos em algumas semanas.

Os principais frameworks e certificações ESG para as empresas

A escolha dos referenciais corretos define quais métricas coletar, qual narrativa estruturar e quais auditorias preparar. Os frameworks e certificações abaixo são os mais relevantes para empresas brasileiras que querem construir relatórios com reconhecimento de mercado:

  • GRI Standards (Global Reporting Initiative): voluntário no Brasil e amplamente adotado globalmente. Foco em dupla materialidade, cobrindo os impactos da empresa no mundo e do mundo na empresa. Público prioritário: múltiplos stakeholders, incluindo clientes, comunidade e ONGs. É o referencial mais utilizado para relatórios de sustentabilidade amplos e de comunicação com diferentes públicos.
  • ISSB / IFRS S1 e S2: padrão internacional de materialidade financeira, voltado para investidores e mercado de capitais. Mesmo com a remoção da obrigatoriedade prevista pela CVM, o ISSB segue sendo o referencial adotado voluntariamente por empresas em mais de 17 jurisdições globalmente. Organizações que o adotam comunicam alinhamento com os padrões que investidores institucionais internacionais utilizam como referência em suas análises.
  • SASB (Sustainability Accounting Standards Board): voluntário, integrado ao ISSB. Oferece indicadores de materialidade setorial específica para 77 setores da indústria, complementando o ISSB com profundidade que o padrão geral não detalha. Indicado para setores com alta especificidade regulatória como financeiro, energia e saúde.
  • CSRD / ESRS (Corporate Sustainability Reporting Directive): obrigatório para empresas com operações ou receita relevante na União Europeia. Exige dupla materialidade e cobre investidores, reguladores e stakeholders em geral. Fornecedores brasileiros de grandes compradores europeus que não entregam dados ESG estruturados tornam-se um passivo regulatório para seus clientes — independentemente do que determina a regulação brasileira.
  • TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures): integrado ao IFRS S2. Framework focado em riscos e oportunidades climáticas, com materialidade financeira voltada a investidores e credores. Sua lógica foi absorvida pelos requisitos do ISSB e segue sendo o padrão de referência para discussões de risco climático com o mercado financeiro.
  • B3 ESG Annex: exige ao menos uma mulher e um membro de grupo sub-representado no conselho das empresas listadas na B3, com mecanismo comply or explain. Inclui indicadores de diversidade de gênero e racial na liderança que passam a ser auditados progressivamente por fundos de impacto e investidores institucionais.
  • EcoVadis: plataforma de avaliação ESG de fornecedores utilizada por multinacionais como Nestlé, Bayer, Danone, Coca-Cola e Unilever. O rating avalia políticas, ações e resultados em quatro pilares de sustentabilidade, com auditoria anual de acompanhamento. Para empresas que participam de cadeias com grandes compradores multinacionais, o rating EcoVadis funciona como pré-requisito ativo de qualificação comercial.

O momento em que o relatório comunica mais do que dados

Organizações que constroem relatórios ESG voluntariamente, com rigor processual e publicação consistente ao longo do tempo, acumulam um tipo de credibilidade que não se constrói retroativamente. Cada ciclo de reporte bem executado fortalece a base de evidências disponível para compradores, investidores e parceiros que utilizam ESG como filtro de decisão.

A remoção da obrigatoriedade, no contexto atual, cria uma janela em que a escolha de reportar comunica mais do que o conteúdo do relatório em si. Ela indica que a empresa trata ESG como parte do modelo de gestão, e não como resposta a uma exigência externa. Esse sinal chega antes da reunião comercial, antes da proposta e antes da due diligence.

Empresas que entendem isso e estruturam seu processo de reporte agora chegam aos próximos ciclos com histórico verificável, dados auditados e uma posição de mercado que concorrentes que esperaram para decidir terão dificuldade em alcançar no mesmo prazo.

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